Saímos de São Januário por volta das 1:30 da madrugada do dia 08 do mês corrente. Assim que cheguei no bar da guerreiros – como é conhecido o bar do Sr. Joélcio, por ser o ponto de encontro dos Guerreiros do Almirante – chovia um verdadeiro “pé d’água”. Iansã começava ali seu trabalho de limpeza dos anos de desventuras que carregávamos. Fomos, assim, banhados pela esperança da nova taça até a friorenta cidade de Curitiba.
As 13 horas dentro do ônibus correram daquele jeito: cerveja, bebidas, “batizado” dos novatos de caravanas, “briga” entre os do fundo e os da frente e muita, mas muita música de incentivo ao nosso amado clube.
Falar dos detalhes do ônibus, dos companheiros, do preço abusivo dos alimentos nas paradas, do sono, do desconforto de só poder defecar nos banheiros do Graal, enfim, de todo o perrengue que os aventureiros de excursão pelos estádios de futebol do Brasil a fora sofrem, me parecem sem muito sentido agora. Deixemos para outro momento estes por menores fascinantes do mundo de um torcedor, louco, muito louco!
A verdade é que nenhum incomodo era maior que a ansiedade do apito final e do grito engasgado. Confesso que o Couto Pereira lota é de arrepiar. A torcida coxa-branca se impõem em campo. E o time responde. É claro que no momento em que o Vasco fez o 1 x 0 com o “mito” Alecsandro, o silencio era algo muito estranho. Mas o time deles reagiu e empolgou-os de novo. No 2 x 1 coxa, tive medo pela primeira vez. Até então me sentia confiante. Ansioso, mas confiante.
Falava que o silêncio era algo estranho após o primeiro gol cruzmaltino. Explico-me. A verdade é que após o gol e os primeiros gritos, a maior parte da torcida só conseguia se abraçar, chorar e agradecer! Faço parte de um movimento de torcedores, os Guerreiros do Almirante, que já assistiu a muitos títulos vascaínos, mas somente individualmente. Como grupo, ainda não tínhamos tido este gosto. A minha geração, que viveu a adolescência e as primeiras experiências de arquibancada na década de 1990, se acostumou as taças: tri campeão invicto (92-93-94), Brasileiro com o Recorde de artilharia (97), Carioca e Libertadores no ano do centenário (98), Taça Rio-São Paulo (99) e Brasileiro e Mercossul, na vira mais empolgante da História do futebol (2000).
A longa demora, quando olhada dentro da História do Vasco, em particular, e do Futebol, em geral, não é nenhuma novidade. Tivemos o vácuo de 1958-1966, seguido por 1966-1974. Como a História só se repete como farsa ou como tragédia, quis o destino que neste novo período de seca, fossemos parar no submundo... Águas passadas não movem moinho, mas títulos novos nos levam às Américas!
O primeiro gol do “Mito” Alecsandro e veio a certeza: Vasco campeão! O time jogava mal. Era somente transpiração. De nada lembrava a técnica e o domínio sobre o adversário na casa deste, como contra o Náutico, Atlético-PR e Avaí. Erros na proteção à melhor dupla de zagueiros do País, principalmente com o cabeça de área, Eduardo Costa (aliais, deveria pegar logo a camisa 5, uma vez que a 8 volta ao reizinho), que até marcava bem, mas errava nos passes, e na lateral esquerda, com Ramon nem marcando bem, nem atacando com presteza.
Em dois desses erros, duas duchas de muito frio. Auge do nervosismo! A como faz falta um surdo numa torcida. Tínhamos que apoiar somente com nossas vozes roucas e engasgadas. No intervalo, a discussão com um amigo da banda da colina só mostrava que sentíamos medo...
Começa o segundo tempo e somos poucos cantando: “o Vasco é o time da virada, o Vasco é o time do amor, lêlêlê lêlê, oh oh ooooo”. Aquela partida truncada, Felipe dando carrinho na lateral e evitando a bola sair. Ah nosso maestro, como eu queria que teu chute tivesse acertado o gol em Tóquio no ano de 1998...! Tu és a garra que todo vascaíno sente: Edmundo, Juninho, Felipe, ídolos recentes que não sentem vergonha em chorar de emoção pelo vascão, mas que em campo nunca param de lutar! E esse espírito inflamou Eder Luiz. Naquele momento cantávamos quase sozinhos, “Oooh Vamos ganhar Vasco, Vamos ganhar Vasco, vamos ganhar Vascoooo oh!”, quando o destino se impôs e a curva da bola, o zagueiro a frente da visão do goleiro, fez com que o chute mágico do dentucinho cruzasse a linha que separa a meta do quase: segundo gol cruz-maltino e novamente a certeza: esse título é nosso! Novas lágrimas não se contiveram nos olhos de muitos.
Por alguns lances acreditei que o Vasco sairia de lá não só campeão, mas como também vitorioso. Contra-ataque veloz, Alecsandro recebe de Eder Luiz pela direita na entrada da área, mas chuta por cima do gol enquanto Bernardo esperava livre de marcação pela esquerda. Em novo momento do camisa 7, recebe no semi-circulo clareia o chute, corta pra esquerda, mas os marcadores permanecem em sua frente e o lance esfria... Noutra oportunidade, o novo queridinho de São Januário adentra a área e chuta para a defesa do goleiro do coxa... Não importa a ordem destas oportunidades. Mas no segundo tempo, forma praticamente estas as chances do Clube do Almirante. No mais, haja estomago para agüentar a pressão coritibana. Ainda mais quando com um tiro certeiro passaram a frente no placar novamente.
Ah como o tempo demora a passar... ah como o frio parecia querer nos matar. A verdade, no entanto, é maravilhosa, e sim, podemos gritar: “é campeão!” Abraços, orações, agradecimentos, xingamentos, “Vice é o caralho!”, esperança em conquistar novamente as Américas, esperanças em Tóquio! O gigante de vez em quando hiberna, mas quando acorda, levanta com fome. Começamos a comer, e esperamos não pararmos com nenhuma indigestão! Senhores beneméritos e conselheiros. Senhores cartolas e empresários. Suas vidas cheias de riqueza e glamur depende de nossa paixão. Não estraguem nosso Vasco em mais uma fatídica eleição. Dinamite, volte a ser ídolo e acabe com esta sua hipocrizia. Já que vai fazer as pazes com nosso Animal, repense tua vida. Repense porque o único vice-presidente honrado que te apoiava te abandonou – Luso Soares da Costa merecia mais respeito presidente! Acabe com essa vergonhosa “genro-tour”. Eurico, sei que sentis-te alegria com esta conquista. Não deixe se empolgar pela disputa de poder. Nosso Club de Regatas Vasco da Gama precisa continuar a comer as copas e taças pelo mundo a fora!
Doce vitória! Para completar, Iansã deu novamente o ar da graça. Por trêz vezes estourou seu trovoar antes da chuva começar. Primeiro vieram os Granizos, lembrando o gelo que sentíamos em nosso peito. Depois a chuva, lavando nossas almas. A mesma chuva veio conosco estrada a cima e desceu sobre São Januário, terminado de lavar todo vascaíno apaixonado! Eparréi Oyá!
Eu acordei depois de dias andando pelo Vasco. Mais de 1600 Km percorridos em 3 dias sem sono e sem alimentação decente. Mas valeu. Ogum Ié! Nos levou e nos trouxe em segurança! Hoje acordei para um longuíssimo dia de trabalho e continuo sendo campeão! Eu sou um campeão! Eu e meus companheiros guerreiros vivemos aquilo mais intensamente que muito atleta por aí! Esse título ninguém tira de nós!
Fodásticaaaaa essa quarta feira.
ResponderExcluirApós o apito final, fomos com o Gui para a praça Vanhargem comemorar o título.
um beijão